Pérola

Só Deus sabe, só eu e Deus, essa falta que me dói tanto que me falta ar, na verdade, não só o ar, falta-me tudo, que até eu me falto. E me faltando, muitas vezes, não sei mais como existir, como é ser eu, sem ser mesmo essa falta imensa. Só Deus sabe como é viver nessa grande imposição do silêncio, que ganha a forma do vazio, que dói. Dói até a gente perder os sentidos. E perco sempre o sentido, nada mais faz sentido, não existe sentido. Assim eu estou, sem ele aqui, faltando-me em cada célula do meu corpo. Não posso, não consigo ser eu mesma, não lembro mais. Só consigo ser essa que sou de vez em quando. Deus, esse do silêncio, pode compreender o silêncio que mora aqui, e dorme num quarto da minha casa.  Só Deus mesmo para compreender, e me revelar as razões possíveis,  que podem significar esse sono profundo da vida em mim. Tem algumas razões que me resgatam e me trazem para a rotina prática daquilo que é urgente, são como as razões que vejo no sorriso da minha filha, e na sua alegria, mas se me distraio por um segundo, um instante, volto ao meu castelo vazio, e contemplo a grande ausência, que não sei se a chamo pelo nome do meu filho ou se chamo de Pai.

Viva em mim

A raiva é mais ferina quando vem reagindo a uma injustiça. A raiva é filha parida de uma injustiça, julgada e sentida pelo próprio juiz, num código de leis que regem os instintos. A raiva é um sentimento que corta a mão de quem a segura,  e apodrece quando esquecida, guardada em cômodos escuros da alma. Deus, me condene a tudo nessa vida, mas não me deixe presa nas correntes irracionais de uma  raiva qualquer. Preencha-me, se for possível, de borboletas, pois quero milhares delas, voando no meu estômago. Vale mais estas asas ventilando minha memória, do que parar nas mãos covardes do destino.

Quimeras do amor

Não tenho nada dizer a você, meu amor. A não ser que você queira ser além desse grande vazio que me preenche da sua inconsistente presença. Eu sinto sua falta é outra coisa que posso te dizer. Não é a falta de nada que eu tenha vivido, porque eu não existi para você, acho que você não me viu, distraído com a dança das minhas sombras. Só por isso tenho essa doce ilusão de que vivo no mundo, e por essa dádiva, posso usufruir de alguma beleza, mais por generosidade desse nosso amor. Mas sentir esse vazio que tua presença me torna, é quase como passar pela vida sem nenhum sentido. Claro, para que outra coisa tu servirias, meu amor? Para nada além de maquiar os prazeres do poder. E talvez pelo caminho, criar um sentido para sentir-se luz. E,  sem nenhuma ilusão de que tu possas me dar mais do que isso,  eu fico aqui presa, como um inseto em volta do lustre, como uma escrava que te ama fielmente, mesmo tendo tão pouco de ti nos meus sentidos. Algumas vezes eu te vejo, outras eu te sonho. E vou me seguindo por aí, pelos oásis da imaginação.